Setor bancário use forças e projeta caminhos para recuperação econômica

A Febraban promoveu no dia 30 de novembro o Encontro Anual dos Dirigentes de Bancos, tradicional encontro que reúne líderes das instituições financeiras associadas à Federação Brasileira de Bancos e autoridades. De forma virtual e com transmissão ao vivo na noomis, o evento recebeu o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que fez um balanço do cenário macroeconômico no Brasil e no mundo, Pedro Moreira Salles, presidente do Conselho Diretor da Febraban, além de Isaac Sidney, presidente da Febraban. Eles destacaram as iniciativas do setor bancário e os caminhos para a recuperação econômica. Assista no vídeo acima à íntegra do evento e, abaixo, leia os destaques.

Durante sua apresentação, Campos Neto, assim como os outros dois executivos, lamentou precisar ainda falar sobre os números da pandemia, mas disse que é preciso alertar para esta crise, sobretudo em razão do aumento dos casos na Europa e da chegada da variante Ômicron. “Não podemos esquecer áreas e temos que combater essa discrepância entre países em termos de capacidade de obtenção de vacinas”, defendeu.

O presidente do BC trouxe dados sobre a macroeconomia global e os impactos no Brasil. Sobre a inflação, alertou que é um problema global. “É importante avançar na agenda de reforma e na credibilidade. Precisamos ter uma união de políticas em torno de gerar eficiência e produtividade nos próximos anos”, afirmou Campos Neto, que destacou ainda os avanços na agenda tecnológica, com Pix, open banking e os estudos da criação da moeda digital do BC.

Pedro Moreira Salles: “Vivemos o final de um ciclo

Moreira Salles abriu seu discurso lembrando dos duros meses de pandemia ao qual o mundo tem enfrentado, e que monopolizou nossas preocupações e prioridades ao longo dos últimos 20 meses. “Mas seu (pandemia) custo humano, social e econômico tem sido tão excruciante que não seria razoável evitar o assunto. No entanto, diferentemente do que ocorreu no final do ano passado, quando as perspectivas sobre o controle da situação eram difusas, para dizer o mínimo, a reta final deste ano me permite ser mais otimista”, disse.

Ele ressaltou que a pandemia não irá desaparecer da noite para o dia e que estamos, aliás, sob novas ameaças. “Entretanto, é esperado que ela se transforme em endemia, com a qual teremos que lidar por muito tempo ainda. Graças à ciência, acima de tudo, mas também a um vasto conjunto de ações desenvolvidas por governos, companhias privadas e sociedade civil, o mundo vem fazendo grandes avanços em direção à retomada da normalidade.”

Para Moreira Salles, apesar de ainda não estarmos no fim da crise, é preciso reconhecer que o pior já passou. E o ano de 2021, como ele destaca, marca o final de um ciclo. “Um ciclo curto, de apenas dois anos, mas que jamais esqueceremos. Um ciclo cheio de desafios, com uma boa cota de dor, mas também repleto de lições, reflexões e ajustes de curso.”

Setor bancário assume protagonismo na crise

Sobre a atuação do setor bancário neste período de crise, Moreira Salles destacou que os bancos não apenas agiram com energia e coragem para fomentar a economia com crédito em montantes inéditos, como também continuaram a atender seus clientes sem interrupção, impedindo assim que o caos inerente à situação atingisse a vida financeira das pessoas e, consequentemente, o tecido social do país. “Disso, muito nos orgulhamos”, afirmou.

Ele também lembrou de ações de voluntariado e doações, e, sobretudo, a prestação de serviços dos bancos. “Para isso serve um banco: prestar serviços. No dia a dia das nossas atividades, temos a responsabilidade e a honra de sermos embaixadores.”

“O setor bancário brasileiro conseguiu atravessar com segurança e estabilidade esse momento difícil não apenas porque possui robustez financeira, mas também, e sobretudo, porque demonstrou robustez de caráter.”

Moreira Salles fez também questão de agradecer a todos os colaboradores do Sistema Financeiro, particularmente os que atuaram na linha de frente, “pois eles foram responsáveis por garantir o bom funcionamento dos bancos nos momentos mais críticos da pandemia.”

Por fim, a mensagem deixada por Moreira Salles é de “grande ânimo e profunda confiança nos bancos que atuam no Brasil e na entidade que os representa: a Febraban”. “Em vez de reclamar do vento, aqui nós sempre preferimos ajustar as velas. E acho que fizemos isso mais uma vez.”

Bancos não vão desaparecer

Sobre o futuro, Moreira Salles afirmou que há quem diga que o setor bancário, tal como conhecemos, irá desaparecer para dar lugar a uma nova realidade. Não é essa a minha visão. É da natureza dos bancos se adaptar a novos cenários e concorrentes.”

“Para onde quer que as fronteiras da inovação levem o mercado financeiro –com novas moedas, novas plataformas, nova regulação ou novas modalidades de contato com os clientes–, o setor bancário continuará a ser o seu componente central e definidor. O maior, o mais relevante, o mais confiável, o mais próximo do cliente”, garantiu o executivo.

Isaac Sidney: setor bancário tem poder de destaque na recuperação econômica

O presidente da Febraban, Isaac Sidney, destacou que “tudo que queremos, ao longo de 2022, é, com segurança, seguir numa trajetória de normalidade, de preservação da vida, da saúde e de retomada da economia.”

Ele afirmou que 2021 foi mais um ano especialmente desafiador para a indústria bancária. “Mas podemos, sem qualquer viés de falta de modéstia, dizer que mais uma vez os bancos contribuíram com as necessidades da economia e da sociedade brasileira.”

“Os bancos aqui no Brasil, nessa pandemia, ao lado do Congresso, do Governo e do Banco Central, formaram um muro de contenção e ajudaram a economia brasileira a não colapsar”, destacou Sidney.

O crédito, informou Sidney, continuou crescendo de forma expressiva em 2021. “O saldo das operações de crédito atingiu R$ 4,5 trilhões, o equivalente a 53,2% do PIB. Um crescimento real de quase 5% (4,81%) ante outubro de 20, já descontada a inflação. A expansão da carteira de crédito em um ano está em 16%.”

Desafios e caminhos para a retomada econômica

Sobre o front econômico, Sidney alertou que estamos em meio a recentes turbulências, mas também temos boas notícias no balanço de 2021. “Vamos fechar o ano com um crescimento em torno de 5%, o que nos permitirá recompor a forte queda do PIB de 4,1% do ano passado.”

“Não ignoro que as perspectivas dos agentes econômicos para o ano que vem são desfavoráveis, mas ainda estamos entre os países de melhor desempenho econômico no pós-pandemia.”

No campo Legislativo, o presidente da Febraban disse que ainda é preciso avançar nas reformas estruturais, mas destacou o ano intenso, com a aprovação pelo Congresso de projetos importantes, que tem grande potencial para a melhoria no nosso ambiente de negócios.

“Lembro que Parlamento aprovou a Lei de Independência do Banco Central. O BC, neste momento, passa por uma prova de fogo, mas a nossa firme expectativa é que a independência formal que o Congresso lhe conferiu, com o referendo constitucional do Supremo, faça toda a diferença para que, sem qualquer hesitação, o guardião da nossa moeda possa lidar com as fortes pressões inflacionárias da economia global e doméstica.”

Ele disse ainda que o Banco Central sozinho não conseguirá vencer esta guerra contra a inflação. Temos de ajudar o Banco Central. Nosso grande desafio, neste momento, é restabelecer a confiança dos agentes econômicos na âncora fiscal e na condução da política orçamentária.”

“Relembro que os desafios são imensos, mas sabemos o caminho a trilhar. Precisamos avançar na agenda microeconômica e na melhoria do ambiente de negócios. Temos de avançar em outras frentes, o que passará necessariamente pelo restabelecimento da confiança na política fiscal, no controle da inflação e na retomada da agenda de reformas estruturais. Contem com meu otimismo e a disposição da Febraban em ajudar”, afirmou Sidney.

Competitividade no setor financeiro

O presidente da Febraban destacou ainda a agenda de competitividade, com a implementação do Pix e do open banking. Outra agenda importante destacada por Sidney é a da Sustentabilidade. “Os bancos nunca hesitaram em atuar pelas finanças sustentáveis no Sistema Financeiro Nacional, sempre tivemos as melhores práticas, e sempre buscamos oferecer maior disponibilidade de recursos e melhor controle e gerenciamento de riscos.”

Mencionou ainda a retomada da Agenda Regulatória Internacional, notadamente a 2ª fase do Acordo de Basileia 3 e o novo padrão contábil internacional (IFRS9), que reforçarão a resiliência do setor e a forma como os bancos gerenciam seus créditos problemáticos e suas provisões.

“O sistema bancário brasileiro passou por mais um severo teste durante a pandemia. Nosso setor venceu essa batalha e tem apresentado em 2021 resultados e indicadores mais alinhados ao período anterior da crise.”

Agenda regulatória

Sobre a agenda regulatória, Sidney disse que que o setor bancário é fortemente regulado e não poderia ser diferente. Para o executivo, a regulação é fundamental para proteger o sistema bancário e, principalmente, a sociedade. “Mas defendemos um arcabouço sem brechas para o que se chama de arbitragem regulatória, para que os agentes possam se valer das suas legítimas vantagens competitivas e não de eventuais benefícios de caráter regulatório”, ressaltou. Players que exercem a mesma atividade, tem o mesmo porte e oferecem riscos sistêmicos precisam estar submetidos à mesma regulação. Confiamos que Banco Central está atento e que não permitirá que colossos financeiros se formem com distorções regulatórias. Seguiremos determinados, insistindo neste ponto.”

Por fim, Sidney ressaltou o compromisso com a livre concorrência, com a abertura dos mercados e o incentivo aos novos ingressantes que o Banco Central vem promovendo.

Fonte: Febraban