Saúde Mental na Pandemia

A saúde mental nunca esteve tão em alta. Após a pandemia do Coronavírus, vimos crescer consideravelmente a procura por soluções completas para suprir não só o cuidado com a saúde física, mas, principalmente, com a mental e a emocional.

Pensando no bem-estar dos profissionais G&P, fechamos parceria com a psicóloga Juliana Grasso. Confira a entrevista que fizemos com a profissional na edição de junho da Revista News G&P:

News G&P: Primeiramente, ficamos muito felizes com a parceria entre você e a G&P. Fale um pouco da sua trajetória profissional:

Juliana: Sou muito grata pela oportunidade de falar com todos os colaboradores da G&P sobre esse tema tão importante, que é a saúde emocional.

Minha primeira formação acadêmica foi em administração de empresas pela Universidade Mackenzie, seguida de uma pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas em gestão estratégica de negócios. Já naquele momento, na minha prática profissional, sempre observei que muitos dos problemas vivenciados estavam além dos números, mas sim nas relações com os outros e com a gente mesmo. Durante 11 anos trabalhei na área administrativo financeira e através dessa experiência, pude me conectar com as necessidades tanto de empresas como dos colaboradores. Dentro deste contexto, segui para uma outra área do conhecimento que é a Psicologia. Sou psicóloga clínica e no momento, além dos atendimentos individuais, faço doutorado em Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, e também contribuo com empresas e instituições que valorizam a saúde emocional dos colaboradores, dentro e fora da empresa.

News G&P: Recentemente você lançou o Podcast Psico7. Como surgiu a ideia?

Juliana: Aprendemos desde cedo a cuidar de ferimentos externos, sabemos onde fica a caixa de primeiros socorros quando precisamos de pomada para queimaduras, ou comprimidos para dor de cabeça. Mas quando se trata de cuidado com a nossa saúde emocional, não sabemos por onde começar. Pensando nisso, e buscando disseminar o conhecimento sobre a importância de olharmos para nós mesmos de forma gentil, e entendendo que todos precisamos de apoio e cuidado em algum momento – fato esse que ficou muito aparente e descortinado durante a pandemia – entendi que compartilhar um pouco desse conhecimento, em formato de “pílulas” de 7 minutos, seria um convite para que os ouvintes pudessem se perceber e se entender nesse contexto desafiante.

News G&P: Devido a pandemia, muitos profissionais da G&P estão trabalhando home office. Neste momento, como podemos cuidar da nossa saúde mental?

Juliana: Muitas das questões que emergiram durante a pandemia já estavam guardadas em algum lugar em nós, que não queríamos ou não podíamos entrar em contato. A intensa convivência que nos foi imposta pela pandemia, que antes era limitada ao momentos em casa, fez com que muitas coisas viessem à tona. Conflitos mal resolvidos, mágoas… Quando a rotina e o piloto automático que estavam estabelecidos com as atividades em outros ambientes praticamente cessou, estar em casa e lidar com esses conflitos não foi fácil. Por outro lado, muitas pessoas que moravam sozinhas também vivenciaram um isolamento de contato físico e social, e isso também causa extremo sofrimento.

Para além de toda realidade triste e de muito luto que vivenciamos na pandemia, o home office por um lado é uma grande possibilidade que se abriu, revitalizando a possibilidade de estar menos tempo no trânsito, mais tempo cultivando as relações familiares, mas é também um desafio a mais, devido ao que falei anteriormente, já que tivemos que aprender (ou reaprender) a conviver de forma intensa com as pessoas que moram conosco, e também porque o home office nos fez trazer o ambiente de trabalho para casa, e vice versa.

Acho que o fato em si de estar em home office pode ter diferentes significados para cada pessoa, não é necessariamente bom ou ruim, mas quando pensamos em saúde mental, é importante olhar para nós mesmos de forma gentil, dando oportunidade para sentir o que quer que estejamos sentindo, abrindo espaço para o acolhimento de nossos próprios sentimentos. Assim, conseguimos perceber se o que estamos vivenciando está de alguma forma prejudicando nossos relacionamentos, nosso autoconceito, nosso trabalho, e mesmo se emoções como o medo ou ansiedade estão trazendo prejuízos. Com esse olhar gentil para nós mesmos conseguimos perceber se é necessário procurar ajuda profissional. Sei que a G&P oferece um serviço de escuta para os colaboradores, então, se em algum momento houver a percepção de que é importante falar com alguém, busque ajuda.

Juliana Grasso – Psicóloga Clínica – CRP 06/158987

News G&P: Que hábitos podem ser cultivados para amenizar a ansiedade durante esse período?

Juliana: Cuidar da nutrição de nosso corpo, comendo bem, e trazendo movimento através de uma atividade física possível nesse contexto (dançar em casa, caminhar de máscara e tantas outras) pode ser um caminho para amenizar não apenas a ansiedade, mas outros fatores de desconforto, como dores nas costas devido a estar muito tempo na tela – isso se aplica também às crianças, trazer movimento para as aulas online, mudando de ambiente de tempos em tempos, trocando de cadeira, sentando um pouco no chão, isso ajuda a manter a atenção na aula. Importante também cuidar da mente e emoções, reservando momentos de quietude e inserindo pelo menos uma atividade no dia que te traga alegria (ouvir uma música, fazer uma meditação, brincar com o filho, ler um livro), a lista é infinita e se você ainda não sabe que atividade poderia fazer, que tal lembrar de qual era seu hobby quando criança ou adolescente?

Quanto a ansiedade em si (a ansiedade presente em todos nós, não o transtorno de ansiedade que é diagnosticado por médico e demanda tratamento específico e eu explico as diferenças no podcast sobre ansiedade), uma dica preciosa é se conectar ao momento presente. Uma forma bastante eficiente e documentada de trazer nossa atenção para o agora, é prestar atenção na respiração, percebendo o ar entrando, e o ar saindo. Se o foco na respiração traz algum desconforto, pode levar a atenção para olhar em volta, se conectar com os objetos do ambiente, como se nunca os tivesse visto antes, ou mesmo com os sons do ambiente. Você pode por exemplo, por uma música que goste e se propor a prestar atenção plena na música, nos acordes, na letra… quando conseguimos voltar o foco da nossa atenção para o momento presente, geralmente há um alívio tanto das tensões quanto dos pensamentos.

News G&P: Nesse contexto de ansiedade aumentada, combinada com o fato de estarmos trabalhando de casa, pode ficar difícil se desconectar totalmente do trabalho. Na sua opinião, como garantir o equilíbrio entre trabalho e descanso enquanto se faz home office?

Juliana: A pandemia escancarou exatamente essa falta de equilíbrio em muitos âmbitos da nossa vida. Para muitas pessoas já era difícil desconectar do trabalho, mesmo tendo passado o dia todo na empresa. Assim, há um convite a mudança de muitos hábitos antigos, que em outro contexto talvez nunca tivéssemos parado para pensar.

Para além disso, estabelecer tempo de uso nos smartphones após determinado horário, abster-se de levar telefone para as refeições e se possível, ter um local específico para o trabalho, para que assim seja possível desconectar-se física e emocionalmente depois do expediente, podem ser recursos importantes para o estabelecimento de novas rotinas mais sustentáveis de descanso e trabalho.