Depressão: o grande mal-estar social!

As depressões são consideradas o “mal do século” XXI.

A tristeza sem motivo que a justifique, o desânimo, o desinteresse pela vida e pelo trabalho, a irritabilidade, a inapetência e a insônia, sentimento de vazio, falta de sentido na vida e esgotamento caracterizam os casos mais graves do Transtorno Depressivo Maior, chegando às ideias e tentativas de suicídio. Outro aspecto importante da depressão é o silêncio, a dificuldade de falar que se apresenta.

De acordo com o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), as principais características da depressão são o humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de mudanças somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade do indivíduo de seguir com sua rotina diária. Embora possa ocorrer apenas um episódio, geralmente é uma condição recorrente. É muito importante distinguir o que é uma tristeza ou luto normais de um transtorno depressivo.

Os indivíduos com transtorno depressivo maior tendem a ter uma visão distorcida de suas vidas e a atitude negativa faz com que seja difícil imaginar como os problemas ou situações podem ser resolvidos de uma maneira positiva.

De acordo com a OMS (2000) a depressão foi a principal causa de incapacidade no mundo avaliada pelo índice de anos vividos com incapacidade (AVIs) e a quarta causa de perda de dias de produção.

A maioria dos estudos epidemiológicos também revela uma relação entre os eventos de vida considerados estressantes, especialmente os negativos, o estresse crônico e o cotidiano com o início e a evolução dos transtornos depressivos. O acúmulo de eventos de vida estressantes, entre os quais se incluem, além de mortes, separações e doenças graves, início em um trabalho novo e mudanças nas condições de trabalho, parece predispor uma pessoa a episódios de depressão.

Vale ressaltar mais o agravante da pandemia do novo coronavírus (COVID-19) que é a maior emergência sanitária que o mundo enfrenta em décadas. Além das preocupações quanto à saúde física, traz também preocupações quanto ao sofrimento psicológico experienciado pela humanidade nesses últimos meses. Esta representa significativo fator estressante à saúde mental e bem-estar psicológico devido às mudanças nas rotinas, relações familiares, distanciamento social de idosos e outros grupos de risco, quarentena, diminuição das conexões face a face e interações presenciais.

Depressão e o trabalho

O desemprego é considerado um fator de risco significante para depressão no mundo do trabalho. A era moderna se organiza em torno do trabalho, ou seja, da produção de objetos a ponto de esse tornar-se um ideal, uma vocação, uma nobreza, “ser trabalhador”, “ser profissional”.

Para Melman (2009 apud Dossiê 2011) o interesse das organizações é nos indivíduos e nas estatísticas correspondentes e não nos sujeitos, que são sujeitos de desejo e o desejo sempre desorganiza as coisas. “Toda organização do trabalho exclui o sujeito. Então, cabe a cada sujeito inventar um lugar na rede de relações sociais. O que é insuportável é não haver nenhuma possibilidade de lugar para sujeito do trabalho, para ação, para ato, criação, trabalho vivo, portanto, para o desejo”. Se o trabalho não é o nosso único valor, ocupa sem dúvida certa centralidade tanto em relação à subsistência, quanto à inserção social e à constituição subjetiva, num mesmo laço.

São tempos em que os indivíduos se queixam da falta de trabalho, do medo de perdê-lo ou das pressões a que se submetem para preservá-lo. O trabalho, uma profissão, uma carreira, também não garante um presente estável ou um futuro promissor e o mal-estar no trabalho pode provocar o suicídio.

Nos dias atuais a manifestação da tristeza tornou-se um tabu e raros são os indivíduos dispostos a escutar a pessoa triste. A falta de tempo é a resposta comum para a ausência de laços e de redes capazes de proporcionar acolhimento ao sujeito e sua tristeza.

Para Nietzsche (1978), manifestação do sofrimento e tristeza são dimensões diferenciadas. Enquanto a primeira pode gerar ações transformadoras da vida, a segunda é sempre uma debilidade. Paralisa o sujeito em momentos decisivos.

Juliana Aline Cardoso e Silva – Psicóloga e Especialista de Recrutamento e Seleção na G&P

Tratamento

Os tratamentos para a depressão geralmente incluem medicamentos, psicoterapia ou ambos. Muitos estudos já foram realizados a fim de tentar identificar quais os melhores tratamentos para a depressão e concluiu-se que a melhor estratégia é a combinação de psicoterapia com a medicação.

Existe uma significativa incidência de afastamentos por depressão, sendo essa a segunda maior queixa da psiquiatria, pois a primeira é ortopedia, no que diz respeito ao stress do trabalho.

A depressão revelou-se como um fenômeno clínico onde a psiquiatria trata com o medicamento que visa aliviar a dor e a psicanálise abre a possibilidade ao sujeito remediar o próprio sofrimento com a palavra.

A medicina tende a oferecer respostas quase automáticas, na forma de tentar medicar o mal-estar e a ‘dor de existir’; tal dor que deve ser eliminada a qualquer custo.

A psicanálise convida o sujeito a falar, permitindo o contato com a dor. Mesmo com avanço do tratamento com antidepressivos, o indivíduo continua buscando um acolhimento diverso da medicalização, que a psicanálise pode oferecer. A psicanálise ocupa um lugar significante: acena com o caminho do desejo para tratar da angústia que é inerente ao ser humano. Como discursa Lacan (1962 apud Scielo 2007), “o melhor remédio para a angústia é o desejo”.

Nesse contexto, ainda que de forma remota, deve-se proporcionar cuidados psicológicos, os quais envolvem assistência humana e ajuda prática em situações de crise, buscando aliviar preocupações, oferecer conforto e ativar a rede de apoio social se necessário.

Artigo escrito por: Juliana Aline Cardoso e Silva – Psicóloga e Especialista de Recrutamento e Seleção na G&P

Referências bibliográficas:

Artigo – Considerações sobre trabalho e suicídio: um estudo de caso – Rev. bras. Saúde ocup., São Paulo, 36 (123): 56-70, 2011

Brant L.C., Gomez C.M. – Da tristeza à depressão: a transformação de um mal-estar em adoecimento no trabalho – O v.12, n.26, p.667-76, jul./set. 2008

Dossiê – O mundo contemporâneo do trabalho e a saúde mental do trabalhador – II – – Rev. bras. Saúde ocup., São Paulo, Vol.36 • nº 123 – jan/jun 2011

Figuras 1 e 2 – cedidas da web

Schmidt, B., Crepaldi, M. A., Bolze, S. D. A., Neiva-Silva, L., & Demenech, L. M. (2020). Saúde mental e intervenções psicológicas diante da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Estudos de Psicologia (Campinas), 37, e200063. http://dx.doi.org/10.1590/1982-0275202037e200063

SciELO – Scientific Electronic Library – A depressão e o desejo na psicanálise – Estud. pesqui. psicol. v.7 n.1 Rio de Janeiro jun. 2007

Teixeira, S. – A depressão no meio ambiente do trabalho e sua caracterização como doença do trabalho – Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v.46, n.76, p.27-44, jul./dez.2007

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